sábado, 10 de janeiro de 2026

O Labirinto dos Sentidos

O Labirinto dos Sentidos

Um dossiê histórico e sensorial sobre o Mercado Central de Belo Horizonte: a catedral gastronômica onde Minas Gerais se encontra.
Vista interna dos corredores do Mercado Central de Belo Horizonte A alma da cidade em corredores circulares: eleito um dos melhores mercados do mundo, o Mercado Central é um universo onde a tradição resiste ao tempo. (Foto: Acervo Oficial / mercadocentral.com.br)

Existem monumentos erguidos em mármore frio, projetados para serem admirados em silêncio reverente, como as catedrais góticas ou os museus de arte sacra. E existem monumentos feitos de gente, de barulho, de cheiro e de calor humano. O Mercado Central de Belo Horizonte pertence, com honras de estado e mérito popular, à segunda categoria. Ele não é apenas um centro de abastecimento; é o epicentro afetivo de uma metrópole de 2,5 milhões de habitantes, um lugar onde a lógica fria do urbanismo moderno se desfaz diante da calorosa desordem mineira.

Ocupando um quarteirão inteiro no hipercentro da capital, estrategicamente posicionado entre as Avenidas Amazonas e Augusto de Lima, o Mercado é uma cidade autônoma dentro da cidade. São mais de 400 lojas espremidas em 24 mil metros quadrados de corredores que parecem desafiar a geometria euclidiana. É um espaço onde é perfeitamente possível comprar, num raio de dez metros: um canário belga cantor, uma peça de queijo do Serro curado na tábua, uma panela de pedra-sabão esculpida em Ouro Preto e uma cachaça envelhecida por 20 anos em tonéis de bálsamo.

É um caos sensorial absoluto. É barulhento, é intenso, é aromaticamente complexo. E é absolutamente apaixonante. Neste dossiê monumental, vamos muito além do roteiro turístico básico. Vamos dissecar a história política que quase transformou este lugar em um prédio de escritórios, entender a "geografia sagrada" de seus corredores circulares e mergulhar nas nuances que fazem deste galpão a terceira atração turística mais visitada da cidade, atrás apenas da Pampulha e da Praça da Liberdade.

CAPÍTULO I: Do Campo de Futebol à Resistência Heroica

Para entender a alma do Mercado Central, precisamos viajar no tempo para a Belo Horizonte da década de 1920. A cidade, planejada por Aarão Reis e inaugurada em 1897, vivia uma crise de crescimento adolescente. Projetada para ser a capital da ordem e do progresso republicano, inspirada em Paris e Washington, ela enfrentava um problema "velho": o abastecimento. Feirantes, tropeiros e produtores rurais aglomeravam-se na Praça da Estação e nas ruas adjacentes, vendendo suas mercadorias a céu aberto, em meio à poeira, à lama e aos animais de tração.

O prefeito Cristiano Machado, num ímpeto modernizador e higienista, decidiu reunir todos esses comerciantes em um único local fechado, onde pudessem ser controlados e fiscalizados. O terreno escolhido foi curioso e profético: o antigo campo de futebol do América Mineiro. Em 7 de setembro de 1929, inaugurava-se o Mercado Municipal. Mas não imagine a estrutura sólida que vemos hoje. Naquela época, era um grande pátio de terra batida, a céu aberto, cercado por barracas de madeira precárias onde as mercadorias ficavam expostas ao sol e à chuva.

1964: O Ano do "Quase Fim" A história mais dramática e definidora do Mercado não é sua inauguração, mas sua quase extinção. Em 1964, o prefeito Jorge Carone, com uma visão tecnocrata, olhou para aquele terreno imenso no centro da cidade e fez uma conta fria: "Este local é valioso demais para vender batatas, couves e galinhas".

A prefeitura decidiu vender o lote. O plano era demolir o Mercado e entregar o terreno para a iniciativa privada construir um grande empreendimento imobiliário ou um centro administrativo. A ordem de despejo foi dada. O Mercado Central, como entidade pública, estava com os dias contados.

Foi nesse momento de desespero que nasceu a alma guerreira do local. Os feirantes, liderados por figuras históricas que hoje dão nome aos corredores, entenderam que sozinhos eram fracos, mas juntos eram uma potência. Eles recusaram-se a sair. Organizaram-se em uma cooperativa e desafiaram o poder público. A negociação foi tensa: a prefeitura aceitou vender o imóvel para os feirantes, mas impôs condições financeiras draconianas e exigiu o fechamento total do galpão (construção do telhado).

Os comerciantes hipotecaram suas casas, venderam caminhões e trabalharam dia e noite. Contra todas as expectativas, eles pagaram a dívida. O Mercado Central deixou de ser um órgão público municipal e tornou-se uma propriedade privada, gerida por uma associação de lojistas. Essa vitória moldou o caráter do lugar: cada dono de loja ali não é apenas um inquilino pagando aluguel; é um guardião de uma história de sobrevivência.

CAPÍTULO II: A Arquitetura do Labirinto e Como Navegá-lo

Se você já entrou no Mercado Central e se sentiu perdido em menos de cinco minutos, não se preocupe: você não está sozinho, e isso foi (quase) intencional. A arquitetura do local desafia a lógica cartesiana dos supermercados modernos.

O Círculo e a Diagonal

A planta baixa do Mercado é fascinante. Os corredores principais não são retos; são concêntricos, girando em torno de um pátio central (onde hoje fica o estacionamento superior). Porém, esses círculos são cortados por corredores diagonais e transversais, criando encruzilhadas complexas. Existem diversas portarias — Avenida Amazonas, Rua Curitiba, Rua Santa Catarina, Avenida Augusto de Lima — e a regra de ouro de BH é: você raramente sai pela mesma porta que entrou, a menos que tenha um GPS mental muito apurado.

Dica de Navegação: As Cores e os Nomes Recentemente, a administração tentou organizar o caos pintando os corredores e dando nomes de frutas ou personalidades a eles. Mas a dica do especialista é: ignore as placas e use pontos de referência visuais.

  • Se você vê gaiolas de passarinho, está perto da saída da Rua Curitiba.
  • Se sente cheiro de abacaxi, está no centro, perto dos elevadores.
  • Se vê a loja de panelas de pedra, está perto da rampa para o segundo andar.
  • Se sente cheiro de fígado na chapa, você está na ala da Augusto de Lima (onde ficam os bares mais famosos).

A Luz e a Atmosfera

A cobertura do Mercado criou um microclima único. A iluminação é uma mistura difusa de luz natural, que entra pelas frestas laterais e claraboias, com a luz amarela das lâmpadas incandescentes das lojas de queijo. Isso cria uma atmosfera de "eterno entardecer", acolhedora e quente, que suspende a noção do tempo lá fora. O pé-direito alto é fundamental para dissipar o calor e os cheiros intensos, permitindo que a loja de peixe fresco conviva a poucos metros da loja de queijo curado sem que os aromas entrem em conflito — pelo contrário, eles se somam numa identidade olfativa única.

CAPÍTULO III: O Mapeamento dos Setores (Zonas de Influência)

Embora pareça caótico para o novato, o Mercado possui uma organização interna orgânica, baseada em "zonas de influência". Elas não são estanques, mas agrupam tipos de produtos:

  • A Zona Láctea (Queijos e Laticínios): Concentrada principalmente nos corredores centrais. É visualmente a área mais impactante. Pilhas de queijos amarelos (canastra), brancos (frescal) e acinzentados (mofados/maturados) sobem até o teto das lojas. É aqui que o turista entende a importância do leite para a economia e a cultura de Minas.
  • O Setor de Fauna (Animais Vivos): Uma herança direta do passado rural e, talvez, a área mais polêmica para os padrões urbanos modernos. Aqui vende-se de tudo: pássaros ornamentais, galinhas de raça, patos, coelhos, cães e peixes de aquário. O cheiro aqui é forte, de ração e serragem. Para o belo-horizontino, é um passeio de memória afetiva da infância; para o turista, um choque cultural que remete às feiras medievais.
  • A Ala das Ervas e Raízes: O cheiro muda drasticamente para notas de terra molhada e mentol. É o domínio das raizeiras, mulheres sábias que vendem a farmacinha natural de Minas.
    Dica de Compra: Procure pelas "garrafadas" (misturas de ervas em vinho ou cachaça) para problemas específicos, ou compre açafrão da terra (cúrcuma) puro, muito superior ao de supermercado. É aqui também que se encontra o fumo de rolo, cortado na faca na hora.
  • O Segundo Andar (O Refúgio): Muitos visitantes, cansados do furdunço do térreo, esquecem que existe um segundo piso, acessível por rampas largas (projetadas antigamente para carroças). É um erro. O segundo andar é o reino da calma. Ali ficam as melhores lojas de artesanato pesado (panelas de pedra, esculturas em madeira), a Capela de Nossa Senhora de Fátima e restaurantes self-service que oferecem uma vista aérea do movimento lá embaixo.

CAPÍTULO IV: A Sociologia do Balcão

O Mercado Central funciona como o grande nivelador social de Belo Horizonte. Em uma cidade marcada por desigualdades, o balcão do Mercado é o território neutro, a Suíça gastronômica. Às 11 da manhã de um sábado, você verá uma cena antropológica fascinante:

  • O político em campanha, apertando mãos e comendo pastel de angu;
  • O turista de São Paulo ou do Rio, maravilhado, carregando sacolas excessivas de queijo e doce de leite;
  • A dona de casa experiente, que discute o preço do jiló com a autoridade de quem compra na mesma banca há 40 anos e sabe identificar o frescor do legume só de olhar;
  • O boêmio de óculos escuros que está curando a ressaca da noite anterior com uma "loira" gelada (cerveja) e um prato de fígado acebolado.
"No Mercado Central, a etiqueta social é suspensa em favor da convivialidade. É permitido falar de boca cheia, é permitido provar o queijo com a mão (desde que oferecido pelo vendedor na ponta da faca), é permitido e encorajado pechinchar. Ninguém é 'Doutor' aqui dentro; todo mundo é 'meu fi', 'campeão' ou 'freguês'."

CAPÍTULO VI: A Liturgia da Baixa Gastronomia

Se a arquitetura do Mercado Central é o corpo, a comida é a alma. Mas não se engane: aqui não é lugar para toalhas de linho, talheres de prata ou espuma de gengibre. O Mercado Central é o Vaticano da "Baixa Gastronomia" — um termo que o mineiro usa com orgulho para definir a comida de balcão, feita com ingredientes simples, muito sabor e zero frescura.

Comer no Mercado é um ritual que exige técnica. Primeiro, você precisa conquistar seu espaço no balcão (o "cotovelo" é sua ferramenta de trabalho). Segundo, você deve esquecer a contagem de calorias. Terceiro, você deve se entregar às texturas. Existem pratos que definem a experiênncia, e vamos analisá-los com o rigor que merecem.

1. O Fígado com Jiló: O Ícone Improvável

Nenhuma outra cidade do mundo elegeria uma víscera e um fruto amargo como símbolo gastronômico. Belo Horizonte elegeu. O fígado com jiló é o teste de fogo para o turista. A rejeição inicial é comum: "Fígado tem gosto forte", "Jiló é amargo demais". Mas a mágica acontece na chapa.

A Alquimia da Chapa Bares lendários como o Bar da Lora, o Mané Doido e o Casa Cheia não apenas fritam a carne; eles a transformam. O fígado é cortado em tiras finíssimas, quase translúcidas, para garantir que cozinhe rápido e não fique borrachudo. O jiló, fatiado em meia-lua, entra na chapa com uma quantidade generosa de manteiga de garrafa e cebola.

O segredo químico: o amargo do jiló corta a gordura intensa do fígado, limpando as papilas gustativas. A doçura da cebola caramelizada une os dois extremos. O resultado é um petisco complexo, cheio de "umami", que pede, implora, por um gole de cerveja gelada para completar o ciclo.

2. A Mexida e o Tropeiro

Para quem busca sustância, o prato de resistência é o Mexido (ou "Mexidão"). Originalmente um prato de reaproveitamento de sobras (o famoso "o que tem na geladeira"), no Mercado ele ganhou status de realeza. Arroz, feijão, couve, ovo, torresmo, linguiça e carne de sol são misturados numa chapa fumegante. É servido em pratos que transbordam, muitas vezes coroados com um ovo frito de gema mole. O Restaurante Casa Cheia é famoso por elevar o mexido e o feijão tropeiro a níveis de concurso gastronômico, ganhando prêmios nacionais como o "Comida di Buteco".

3. A Sobremesa: O Abacaxi da Discórdia

Após a gordura do fígado e do torresmo, o corpo pede clemência. É aí que entra a Praça do Abacaxi. Vários boxes dedicam-se exclusivamente a vender a fruta. Os vendedores descascam o abacaxi na hora, girando a faca com a precisão de um torno mecânico, criando espirais perfeitas. A fatia é servida gelada. A acidez da fruta funciona como um detergente natural para o paladar, preparando a boca para a próxima etapa: o café ou a cachaça.

CAPÍTULO VII: A Enciclopédia do Queijo Mineiro

Entrar no setor de laticínios do Mercado Central é entrar na maior biblioteca de queijos do Brasil. Minas Gerais possui o "Terroir" do queijo, reconhecido internacionalmente e protegido por leis de Indicação Geográfica. Mas diante de tantas pilhas amarelas e brancas, o visitante pode ficar paralisado. Como escolher?

Não basta pedir "Queijo Minas". Isso é genérico demais. Você precisa saber a região, a cura e a intenção. Aqui está o guia definitivo para navegar pelas prateleiras de lojas icônicas como a Roça Capital, Laticínios Irmãos Costa e Loja do Itamar:

  • O Canastra (Região da Serra da Canastra): O rei dos queijos. Feito com leite cru, tem uma acidez característica e um toque picante.
    Como identificar: Formato cilíndrico, casca amarela lisa.
    Melhor uso: O "Curado" (mais de 20 dias) é perfeito para comer puro com café. O "Meia Cura" derrete bem no pão de queijo.
  • O Serro (Região do Serro): Mais antigo que o Canastra, tem uma receita trazida pelos portugueses no ciclo do ouro. É ligeiramente mais ácido e rústico.
    Como identificar: Muitas vezes vendido com a casca rugosa ou mofada.
    O Mofo Branco: Não tenha medo. O queijo do Serro com mofo natural é uma iguaria. O fungo "Penicillium" nativo da região digere a casca, deixando o interior cremoso e com sabor de nozes.
  • O Salitre (Região do Alto Paranaíba): Um queijo potente, amanteigado, que muitas vezes apresenta uma textura que derrete na boca. É menos famoso que o Canastra, mas os conhecedores o consideram um dos melhores segredos de Minas.
  • O Alagoa (Região da Mantiqueira): Conhecido como o "Parmesão Brasileiro" ou "Parmesão de Alagoa".
    Característica: É um queijo duro, quebradiço, cristalizado e intensamente saboroso. Ideal para ralar sobre a massa ou para acompanhar vinhos encorpados.
A Etiqueta da Prova No Mercado, provar não é um favor; é uma obrigação. Os vendedores têm orgulho de oferecer a "lasquinha". Nunca compre um queijo curado sem provar antes. O sabor muda de peça para peça, dependendo do clima no dia em que foi feito. Se o vendedor te oferecer, aceite. Recusar é quase uma ofensa pessoal. E lembre-se: o queijo que "chora" (solta soro) é o fresscal e deve ser consumido rápido; o queijo seco viaja o mundo na mala sem estragar.

CAPÍTULO VIII: O Espírito Engarrafado (Cachaça)

Se o queijo é o ouro branco, a cachaça é o ouro líquido. O Mercado Central abriga algumas das garrafeiras mais respeitadas do país. Esqueça a ideia de que cachaça é bebida de "briga" ou de baixa qualidade. Aqui, a cachaça é tratada com a reverência de um Scotch Whisky ou de um Cognac francês.

A complexidade da cachaça mineira vem da madeira. Enquanto o mundo usa quase exclusivamente o Carvalho para envelhecer destilados, Minas Gerais usa a biodiversidade da Mata Atlântica e do Cerrado. As lojas do Mercado são o lugar ideal para uma aula prática sobre madeiras:

  • Bálsamo: A madeira da identidade mineira (muito usada em Salinas).
    Perfil: Deixa a bebida amarelo-dourada, com aroma intenso de especiarias (anis, cravo, erva-doce) e um toque adstringente. É a cachaça de personalidade forte. Exemplos clássicos: Havana, Anísio Santiago, Canarinha.
  • Amburana (ou Cerejeira): A madeira da doçura.
    Perfil: Reduz a acidez do álcool, deixando a bebida aveludada, com notas fortes de baunilha e canela. É a porta de entrada para quem diz que "não gosta de cachaça". É excelente para sobremesa. Exemplos: Claudionor, Boazinha.
  • Jequitibá: A madeira neutra.
    Perfil: Amacia a bebida, tira a queimação do álcool, mas não altera a cor (a cachaça continua branca) nem o sabor original da cana-de-açúcar. É para quem busca a pureza do destilado.

Aviso aos Navegantes: As lojas do Mercado costumam oferecer doses de degustação. Cuidado. A mistura de queijo gorduroso, fígado, calor humano e cachaça de alto teor alcoólico pode ser traiçoeira. Beba água (ou coma abacaxi) entre as doses.

CAPÍTULO IX: O Segundo Andar e o Artesanato

Muitos visitantes, inebriados pelas compras no térreo, esquecem que o Mercado tem um segundo andar. Acessível por rampas largas (projetadas antigamente para carroças, hoje para carrinhos de carga), o andar superior é o refúgio da arte.

A Panela de Pedra-Sabão

O utensílio mais icônico da cozinha mineira está aqui. Extraída nas pedreiras de Ouro Preto e Mariana, a pedra-sabão é um material geológico fascinante: é macia o suficiente para ser esculpida com facilidade, mas resistente ao fogo. Sua principal virtude térmica é a inércia: ela demora a esquentar, mas, uma vez quente, mantém o calor por horas.

Comprar uma panela de pedra exige um ritual de iniciação: a cura. Você não pode tirá-la da sacola e colocá-la no fogo alto, ou ela rachará. O processo envolve untar a peça com óleo, enchê-la de água morna e levá-la ao forno ou fogo baixo, repetidas vezes. Os vendedores do Mercado não apenas vendem a panela; eles vendem a consultoria completa de como curá-la.

A Capela e a Cozinha

No segundo andar também se encontra a Cozinha Escola da Nestlé, onde cursos de culinária gratuitos ou a preços populares ensinam a fazer o pão de queijo perfeito ou o lombo recheado. E, escondida num canto tranquilo, está a Capela de Nossa Senhora de Fátima. É ali que, todos os dias, antes de levantar as portas de aço, muitos comerciantes fazem suas preces. A capela é um lembrete de que o Mercado, apesar de todo o comércio profano, mantém raízes profundas na fé mineira.

CAPÍTULO X: Roteiro Prático e Dicas de Sobrevivência

Para finalizar este dossiê, compilamos as dicas de ouro que só os "locais" conhecem, para que você navegue pelo labirinto como um veterano.

Melhores Horários

Para comprar: Terça ou Quarta-feira, pela manhã (entre 8h e 10h). O Mercado está abastecido, os corredores estão mais vazios e os vendedores têm tempo para conversar, explicar sobre os produtos e negociar preços.

Para viver a experiênncia (o "furdunço"): Sábado, a partir das 11h. O Mercado fica lotado, os bares de fígado com jiló estão em polvorosa, é difícil andar. É o horário da energia social, do encontro, da cerveja em pé. Se você tem fobia de multidão, evite. Se você quer sentir a alma de BH, é a hora certa.

Domingo: O Mercado abre, mas fecha cedo (13h). É um dia de "xepa" de luxo, bom para comprar o almoço de domingo, mas muitas lojas de artesanato podem fechar mais cedo.

Estacionamento e Acesso

Existe um estacionamento no topo do prédio, acessível por uma rampa em espiral que é uma aventura à parte. No entanto, ele é caro e quase sempre lotado. A dica de ouro é: não vá de carro. O trânsito no entorno (Avenida Amazonas/Augusto de Lima) é caótico. Vá de táxi ou aplicativo. Além disso, ir sem carro te dá a liberdade necessária para degustar as cachaças e cervejas sem preocupação.

A Arte da Negociação

No Mercado Central, o preço da etiqueta é apenas uma "sugestão inicial". A cultura da pechincha é viva.
— "Patrão, quanto faz se eu levar dois queijos?"
— "E se eu pagar no dinheiro, tem desconto?"
Essas frases são mágicas. O mineiro gosta da prosa. Não negocie de forma agressiva; negocie conversando, elogiando o produto. O desconto vem quase sempre acompanhado de um sorriso.

O Veredito Final O Mercado Central não é um lugar para quem tem pressa ou frescura. É um lugar tátil, olfativo, humano. É a prova de que, mesmo em uma metrópole digital do século XXI, o ser humano ainda anseia pelo contato direto, pelo alimento que tem história e pelo comércio que tem rosto. Visitar Belo Horizonte e não ir ao Mercado é como ir a Paris e não ver a Torre Eiffel — só que, no nosso caso, a Torre Eiffel tem cheiro de queijo curado e gosto de fígado acebolado. E isso, convenhamos, é muito mais gostoso.
Petisco típico mineiro no balcão do Mercado Central Até a próxima: Leve um pedaço de Minas na mala e a saudade no peito. (Foto: Acervo Oficial / mercadocentral.com.br)

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