quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O JARDIM DA UTOPIA

O JARDIM DA UTOPIA

DOSSIÊ MONUMENTAL SOBRE O PARQUE MUNICIPAL AMÉRICO RENNÉ GIANNETTI

Antes do asfalto, havia o verde. Uma investigação sobre a gênese botânica de Belo Horizonte, o romantismo francês de Paul Villon e os segredos escondidos sob as árvores centenárias.

Antes que a primeira rua fosse traçada na prancheta do engenheiro Aarão Reis, já existia o Parque. Inaugurado em 26 de setembro de 1897, dois meses antes da própria capital, o Parque Municipal Américo Renné Giannetti não é apenas uma área verde; é o útero de Belo Horizonte. Foi ali que a Comissão Construtora da Nova Capital instalou seu quartel-general. Foi ali que se sonhou a cidade moderna que substituiria o antigo Arraial do Curral Del Rei.

Hoje, ilhado por avenidas barulhentas como a Afonso Pena e a Andradas, o Parque resiste como um oásis de 182 mil metros quadrados. Para o cidadão comum, é um atalho fresco entre o Centro e a Área Hospitalar. Mas para o observador atento, é um museu a céu aberto da Belle Époque tropical, um lugar onde a flora nativa e exótica guarda as memórias de uma elite que queria ser europeia, mas não conseguia deixar de ser mineira.

Lagoas do Parque Municipal Figura 1: O romantismo das lagoas artificiais e as pontes rústicas, herança do paisagista francês Paul Villon que desenhou o parque à imagem dos jardins europeus. (Fonte: Portal Belo Horizonte)

CAPÍTULO I: O Sonho Francês de Paul Villon

A concepção do Parque Municipal foi entregue a um homem que entendia de sonhos: o paisagista francês Paul Villon. Villon, que também projetou os jardins do Palácio do Catete no Rio de Janeiro, trouxe para o sertão mineiro o conceito de "jardim romântico inglês". Diferente dos jardins franceses clássicos (como Versalhes), dominados pela geometria rígida, o estilo romântico valoriza a curva, a surpresa e a imitação da natureza selvagem, porém controlada.

Villon aproveitou as áreas alagadiças da antiga Chácara do Sapo para criar um sistema complexo de lagoas artificiais, ilhas e canais. Ele importou espécies exóticas de árvores e desenhou alamedas sinuosas que impedem o visitante de ver o final do caminho, criando uma ilusão de infinitude dentro de um espaço finito. O Coreto Central, com sua estrutura de ferro fundido, é o símbolo máximo dessa era, palco das bandas de música que animavam os domingos da burguesia nascente.

CAPÍTULO II: A Resistência dos Lambe-Lambes

Se Villon deu a forma, o povo deu a alma. Uma das tradições mais resilientes do Parque Municipal é a presença dos fotógrafos lambe-lambes. Eles são os guardiões da memória visual da cidade. Desde o início do século XX, famílias inteiras vestiam suas melhores roupas aos domingos para serem imortalizadas nas alamedas do parque.

O Patrimônio das Caixas Pretas Ainda hoje, caminhar perto da entrada da Avenida Afonso Pena é encontrar esses senhores com suas câmeras-caixote centenárias, muitas vezes decoradas com cavalinhos de madeira ou painéis pintados à mão. Embora a tecnologia digital tenha dominado o mundo, o lambe-lambe resiste como uma performance artística e um ofício tombado pelo Patrimônio Imaterial. Tirar uma foto ali não é sobre a imagem; é sobre o ritual de parar o tempo.

CAPÍTULO III: A Biodiversidade no Coração do Concreto

O Parque Municipal é um ecossistema complexo que desafia a poluição do entorno. Abriga mais de 280 espécies de árvores, incluindo exemplares centenários de Sapucaias, Pau-Mulato e os gigantescos Ficus, cujas raízes aéreas formam cortinas naturais. Mas a fauna é quem rouba a cena. Além de bem-te-vis, sabiás e garças que pescam nas lagoas, o parque é o reino soberano dos gatos.

A população felina do parque é uma polêmica constante e uma atração turística não oficial. Cuidados por voluntários, dezenas de gatos vivem entre os arbustos, sendo alimentados e castrados. Eles se tornaram parte da identidade do local, deitados preguiçosamente nos bancos onde namorados trocam confidências, indiferentes à pressa da cidade lá fora.

CAPÍTULO IV: Do Palácio das Artes ao Subterrâneo

Na década de 1970, o parque cedeu parte de seu terreno para a construção do Palácio das Artes, o maior complexo cultural de Minas Gerais. Essa intervenção, embora polêmica na época por reduzir a área verde, criou uma simbiose interessante: a cultura erudita (ópera, teatro, orquestra) encontrou morada dentro da natureza. O fundo do teatro se abre para as árvores, criando um cenário único.

Menos visível, mas igualmente fascinante, é a rede hidrográfica subterrânea. O parque funciona como uma bacia de retenção natural. Sob seus gramados, correm canalizados o Córrego do Acaba Mundo e o Córrego da Serra. Em dias de tempestade, o sistema de lagoas ajuda a amortecer as enchentes que historicamente castigam o centro de BH, provando que a engenharia de 1897 já previa soluções sustentáveis que hoje tentamos resgatar.

CAPÍTULO V: Mapeamento das Atrações (O Que Não Perder)

Para o visitante que deseja ir além da caminhada casual, o parque oferece monumentos e recantos que contam a história da cidade:

  • O Coreto Digital: Uma estrutura moderna que contrasta com o coreto antigo, palco de experimentações sonoras e visuais.
  • A Ilha dos Amores: Um refúgio acessível por uma pequena ponte, desenhada para ser o local mais romântico e isolado do parque.
  • O Teatro Francisco Nunes: Inaugurado em 1950, é um ícone da arquitetura modernista inserido no verde, palco de grandes festivais como o FIT e o FAN.
  • Os Brinquedos Antigos: O parque de diversões, com sua roda-gigante modesta e carrossel vintage, é um túnel do tempo para a infância das décadas de 80 e 90.
Elemento Significado Histórico Status Atual
Lagoas Sistema de drenagem e paisagismo romântico de 1897. Preservadas, com passeios de barco a remo.
Teatro Chico Nunes Palco da modernidade cultural dos anos 50. Ativo e restaurado, sede de festivais.
Lambe-Lambes Registro visual da sociedade mineira pré-digital. Resistência cultural na entrada principal.
Flora Aclimação de espécies exóticas e preservação nativa. Santuário de árvores centenárias tombadas.

CAPÍTULO VI: Conclusão e o Refúgio Necessário

O Parque Municipal Américo Renné Giannetti é mais do que um espaço de lazer; é um ato de resistência botânica e humana. Em uma cidade que soterrou seus rios e verticalizou seu horizonte, o parque permanece plano, úmido e verde. Ele nos lembra que Belo Horizonte foi desenhada para ser uma cidade jardim, e não apenas um aglomerado de viadutos.

Entrar no parque é baixar a frequência cardíaca. O ruído dos ônibus na Avenida João Pinheiro torna-se um zumbido distante, abafado pela densa cortina vegetal. É o lugar onde o executivo tira a gravata, onde o estudante lê deitado na grama e onde a cidade reencontra sua essência original. Preservar o Parque Municipal não é apenas uma questão ecológica; é uma questão de sanidade mental para a metrópole.

SERVIÇO E DICAS ÚTEIS

Para aproveitar o melhor do Parque, planeje sua visita:

  • Horário: Terça a Domingo, das 07h às 17h (fechado às segundas para manutenção).
  • Acesso: Entrada principal pela Av. Afonso Pena. Entrada secundária pela Av. dos Andradas.
  • Segurança: Embora tenha guarda municipal, evite áreas muito isoladas nos horários de pouco movimento.
  • Imperdível: O passeio de barquinho na Lagoa dos Barcos é um clássico que custa pouco e rende ótimas fotos.
  • Vacina: Para entrar no parque, é frequentemente exigido o comprovante de vacinação contra a Febre Amarela. Leve o seu.

Dossiê Monumental - Edição Especial "Eventos Belo Horizonte" © 2026.

Conteúdo elaborado com base em documentos da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica.

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