sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A CIDADE DE MÁRMORE

A CIDADE DE MÁRMORE

DOSSIÊ MONUMENTAL SOBRE O CEMITÉRIO DO BONFIM

Necroturismo, arte tumular e os segredos da elite mineira: uma viagem ao museu a céu aberto mais silencioso de Belo Horizonte.

Enquanto a cidade dos vivos ferve com o trânsito da Avenida do Contorno e o comércio da Lagoinha, existe uma outra Belo Horizonte, estática e solene, cercada por muros altos. Inaugurado em 1897, antes mesmo da capital ser oficializada, o Cemitério do Bonfim foi projetado para ser o espelho eterno da sociedade que se formava. Se a Praça da Liberdade era o palco do poder em vida, o Bonfim era a garantia da imortalidade em pedra.

Muitos passam por seus portões sem imaginar que ali dentro repousa um acervo artístico incalculável. Comparado frequentemente ao Père Lachaise de Paris ou à Recoleta de Buenos Aires, o Bonfim não é um lugar de medo, mas de história. É onde o granito e o bronze contam a saga política, social e artística de Minas Gerais. Este dossiê propõe abrir os portões de ferro e caminhar pelas alamedas onde o silêncio fala mais alto que o barulho da metrópole.

Esculturas no Cemitério do Bonfim Figura 1: A arte tumular do Bonfim: anjos de mármore de carrara e carpideiras de bronze que transformam a necrópole em uma galeria de arte a céu aberto. (Fonte: Wikimedia Commons)

CAPÍTULO I: A Fundação da Última Morada (1897)

Quando a Comissão Construtora da Nova Capital planejou Belo Horizonte, a questão sanitária era prioridade. A tradição colonial de sepultar os mortos dentro das igrejas (o que era considerado insalubre) foi banida. A nova metrópole moderna e higienista precisava de um cemitério secular, afastado do centro urbano, mas digno de sua elite.

O local escolhido foi uma colina alta, ventilada e visível de vários pontos da cidade. O Cemitério do Bonfim foi desenhado com o mesmo rigor urbanístico da cidade: possui ruas, quadras e avenidas principais. Desde o início, foi destinado às famílias abastadas, que competiam entre si para erguer os mausoléus mais suntuosos. Enquanto a cidade de baixo crescia em alvenaria, a cidade de cima crescia em mármore importado.

Os Italianos e a Pedra A beleza do Bonfim deve muito à imigração italiana. Artesãos, escultores e marmoristas que vieram para construir os prédios públicos de BH encontraram no cemitério um campo fértil para sua arte. Famílias como os Natali e os Monti assinam algumas das obras mais impressionantes, esculpindo no mármore detalhes tão finos quanto rendas e tecidos.

CAPÍTULO II: Um Catálogo de Estilos Artísticos

Caminhar pelo Bonfim é ter uma aula prática de história da arte. Os túmulos não são aleatórios; eles seguem a moda estética de suas épocas. É possível identificar claramente a evolução do gosto da elite mineira através das décadas.

  • Art Nouveau (Início do Século XX): Caracterizado pelas linhas curvas, formas orgânicas inspiradas na natureza (flores, caules) e figuras femininas de cabelos longos e ondulados.
  • Art Déco (Anos 30 e 40): A geometria assume o comando. Linhas retas, granito polido, tipografia moderna e figuras estilizadas, refletindo o progresso e a industrialização.
  • Modernismo (Anos 50 em diante): Mausoléus com traços limpos, uso de concreto aparente e bronze, muitas vezes dialogando com a arquitetura da Pampulha.

CAPÍTULO III: Os Ilustres Moradores

O Bonfim é o "quem é quem" da política brasileira. Ali estão sepultados ex-presidentes da República, governadores, prefeitos e artistas. Visitar seus túmulos é revisitar a República Velha e a Era Vargas.

Entre os túmulos mais visitados estão o de Raul Soares, com uma escultura monumental; o de Olegário Maciel, guardado por uma porta de bronze imponente; e o da família de Juscelino Kubitschek. Embora JK esteja sepultado em Brasília, sua mãe, Júlia Kubitschek, repousa no Bonfim em um túmulo simples, mas de grande significado histórico. Também se encontra ali o túmulo do menino Padre Eustáquio (antes da exumação para sua igreja), que ainda atrai devotos.

CAPÍTULO IV: Lendas Urbanas - A Loira do Bonfim

Nenhuma necrópole estaria completa sem suas lendas. O folclore belo-horizontino tem no Bonfim sua figura mais emblemática: A Loira do Bonfim. A lenda, que aterrorizou a cidade nas décadas de 40 e 50, conta a história de uma mulher de beleza estonteante, vestida de branco, que seduzia homens na vida boêmia do centro.

Diz a lenda que ela pedia aos cavalheiros que a acompanhassem até sua casa. O táxi ou o bonde parava em frente ao cemitério. Ela descia, dizia que morava ali e desaparecia entre os túmulos, deixando o pretendente atordoado. Verdade ou mito urbano criado para conter a boemia, a Loira do Bonfim tornou-se patrimônio imaterial do imaginário da capital.

CAPÍTULO V: O Necroturismo como Valorização

Nos últimos anos, a Prefeitura de Belo Horizonte e a UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais) têm feito um trabalho exemplar de ressignificação do espaço através do projeto de Visitas Guiadas. O necroturismo, longe de ser mórbido, é uma forma de educação patrimonial.

Aspecto O que observar Significado
Simbologia Papoulas (flores) Representam o sono eterno, a paz e o esquecimento da dor.
Estatuária As Carpideiras Mulheres esculpidas em posição de choro, representando a dor da perda.
Materiais Bronze e Ferro Fundido Símbolos de perenidade e força, muito usados na Belle Époque.
Epitáfios Tipografia Antiga Frases poéticas que revelam a visão romântica da morte no séc. XIX.

Esses passeios temáticos (que abordam desde a arte tumular até a história política) transformaram a percepção do belo-horizontino. O cemitério deixou de ser um lugar de esquecimento para ser um lugar de memória viva e apreciação estética.

CAPÍTULO VI: Conclusão - A Pedra que Fala

O Cemitério do Bonfim é um arquivo de pedra. Enquanto documentos de papel podem se perder e memórias orais podem desaparecer, o mármore e o bronze permanecem, resistindo ao sol e à chuva. Ele nos conta sobre uma Belo Horizonte que queria ser grandiosa, sobre famílias que ostentavam poder até na hora da morte, e sobre artistas anônimos que deixaram sua genialidade gravada em anjos e cruzes.

Visitar o Bonfim é um exercício de humildade e admiração. É entender que a cidade é feita de camadas, e que sob o solo da Lagoinha, repousam aqueles que sonharam a metrópole que hoje habitamos.

GUIA DE VISITAÇÃO

O Bonfim é um museu a céu aberto, mas exige respeito e planejamento:

  • Visitas Guiadas: Acontecem periodicamente (geralmente no último domingo do mês). É necessário agendamento prévio no site da Prefeitura ou da Fundação de Parques.
  • Fotografia: É permitida para fins turísticos e culturais (sem tripés ou grandes equipamentos), mas evite fotografar cortejos fúnebres ou pessoas em luto.
  • Segurança: O local é grande. Recomenda-se a visita em grupos ou durante o dia.
  • Localização: Rua Bonfim, 1120 - Bairro Bonfim. Fácil acesso pela região central.
  • O Que Buscar: Procure pelo túmulo de Raul Soares e pelas esculturas assinadas pelo ateliê de Lunardi.

Dossiê Monumental - Edição Especial "Eventos Belo Horizonte" © 2026.

Pesquisa baseada em arquivos do IEPHA e Projeto de Extensão da UEMG.

Nenhum comentário:

Postar um comentário