A Varanda da Resistência
Da aristocracia do Grand Hotel à trincheira literária e gastronômica: uma autópsia do edifício mais boêmio de Minas Gerais.
Figura 1: A fachada modernista e a famosa varanda do segundo andar, onde gerações de intelectuais e boêmios observam o caos da Rua da Bahia. (Fonte: Portal Belo Horizonte)
Se Belo Horizonte fosse um organismo vivo, a Praça da Liberdade seria o cérebro, o Mercado Central o estômago, mas o Edifício Arcângelo Maletta seria, sem dúvida, o fígado. É o órgão vital que processa todas as toxinas, as alegrias, as angústias políticas e os excessos etílicos da capital mineira. Localizado na esquina mais nevrálgica da cidade — Avenida Augusto de Lima com Rua da Bahia — este gigante não é apenas um prédio de concreto; é um ecossistema vertical autônomo que sobreviveu a ditaduras, crises econômicas e revoluções comportamentais.
Para o transeunte apressado do Centro, o Maletta pode parecer apenas mais um bloco envelhecido. Mas para o historiador urbano e o boêmio profissional, ele é um palimpsesto: um pergaminho escrito, apagado e reescrito inúmeras vezes. Ali, onde hoje estudantes discutem filosofia bebendo cerveja barata na varanda, já desfilaram barões do café e presidentes da República. Este dossiê propõe uma investigação profunda sobre o edifício que ensinou Belo Horizonte a viver a noite, a ler livros proibidos e a comer o melhor filé com fritas do hemisfério sul.
CAPÍTULO I: As Ruínas do Grand Hotel e o Sonho Vertical
Antes do concreto, havia o luxo aristocrático. O terreno onde hoje se ergue o Maletta foi, durante a primeira metade do século XX, o endereço do Grand Hotel. Era o epicentro da sofisticação da jovem capital, projetada para ser a Paris dos trópicos. Em seus salões de baile, políticos tramavam os destinos da República Café com Leite e a elite mineira tentava emular os modos europeus. No entanto, com o crescimento vertiginoso de Belo Horizonte na década de 1950, a horizontalidade dos hotéis clássicos tornou-se insustentável. A cidade queria, e precisava, arranhar os céus.
O empresário Arcângelo Maletta, um visionário de origem italiana, comprou o terreno com um plano audacioso: construir o maior edifício de uso misto da cidade. A demolição do Grand Hotel marcou o fim de uma era romântica e o início da era pragmática e modernista. Inaugurado em 1957, o edifício trouxe inovações que deixaram a sociedade mineira boquiaberta: foi o primeiro prédio da capital a contar com escadas rolantes. Na época, visitar o Maletta apenas para subir e descer as escadas mecânicas era um programa de fim de semana para as famílias, comparável a ir a um parque de diversões tecnológico.
CAPÍTULO II: O Bunker de Ideias (A Era da Resistência)
Se a década de 50 foi a do deslumbramento tecnológico, as décadas de 60 e 70 transformaram o Maletta em uma trincheira ideológica. Com o Golpe Militar de 1964, o edifício assumiu uma vocação inesperada: tornou-se o refúgio seguro da intelectualidade perseguida. Enquanto a censura calava os jornais e vigiava as universidades, as mesas da Cantina do Lucas (instalada no térreo desde 1962) fervilhavam com sussurros conspiratórios e planos de redemocratização.
A Cantina do Lucas não é apenas um restaurante; é tombada como Patrimônio Histórico e Cultural de Belo Horizonte. Seu nome original era "Olympico", mas foi rebatizada pelo garçom Lucas, que acabou comprando a casa. Reza a lenda (confirmada por muitos) que, durante a Ditadura, o Lucas servia como ponto de troca de mensagens codificadas entre militantes de esquerda. Jornalistas, escritores como Roberto Drummond e artistas plásticos fizeram daquelas mesas de madeira escura e toalhas xadrez o seu escritório informal. O prato "Filé Surprise" tornou-se o sabor oficial da resistência mineira.
Figura 2: A histórica Cantina do Lucas, com seus lambris de madeira e garçons de jaqueta branca, mantendo a tradição em meio à modernidade. (Fonte: Portal Belo Horizonte)
CAPÍTULO III: A Sociologia dos Andares (Um Prédio, Dois Mundos)
O Edifício Maletta opera sob uma lógica de estratificação social e funcional fascinante. Ele é, na verdade, dois prédios em um, que coexistem em uma tensão constante, mas raramente conversam entre si.
| Zona | Atmosfera e Habitantes | Horário de Pico |
|---|---|---|
| A Torre Residencial (Andares Superiores) | Silenciosa, habitada por uma mistura curiosa de idosos que moram ali desde a inauguração e jovens estudantes da UFMG atraídos pelos aluguéis e localização central. Os apartamentos são grandes, com pé-direito alto e tacos de madeira antigos. | Noite (repouso) |
| O Térreo e Sobreloja (Comercial) | Caótico, barulhento e vibrante. É o domínio dos restaurantes tradicionais, das barbearias antigas com navalhas de aço e das lojas de conserto de relógio que parecem ter parado no tempo. | Almoço e Jantar |
| A Varanda (2º Andar) | O território da boemia jovem e alternativa. Bares veganos, cervejarias artesanais, fumaça, música alta e debates políticos acalorados. É onde o "Novo Maletta" acontece. | 18h às 02h |
Essa convivência nem sempre é pacífica. Existe uma guerra fria histórica entre os moradores da torre, que desejam silêncio e ordem, e os frequentadores da varanda, que celebram a vida em alto volume. Essa tensão, mediada por isolamentos acústicos, multas de condomínio e leis do silêncio, é parte integrante e indissociável da experiência de viver no Maletta.
CAPÍTULO IV: A Revolução Gastronômica do Século XXI
Nos anos 90 e início dos anos 2000, o Maletta viveu um período de decadência e esquecimento. Corredores escuros, lojas fechadas e insegurança davam um ar sombrio ao local. No entanto, a última década trouxe uma gentrificação espontânea e vigorosa. O "Novo Maletta" surgiu não pela mão de grandes construtoras, mas pela ocupação da juventude e de pequenos empreendedores.
A varanda foi tomada por uma nova onda de estabelecimentos que desafiaram a hegemonia clássica da Cantina do Lucas. Surgiram bares focados em:
- Culinária Inclusiva: O Maletta tornou-se o paraíso vegano e vegetariano da cidade. Coxinhas de jaca, hambúrgueres de grão-de-bico e pratos sem crueldade animal disputam espaço democraticamente com o torresmo tradicional.
- Drinks Autorais: Os antigos "copos sujos" (bares simples) deram lugar a mixologistas que preparam gin tônicas com especiarias e drinks moleculares, atraindo um público mais "hipster".
- Diversidade e Acolhimento: O edifício consagrou-se como um espaço seguro e de celebração para a comunidade LGBTQIA+. A liberdade que se respira nos corredores do Maletta é palpável; é um dos poucos lugares em BH onde os códigos de vestimenta e comportamento conservadores são suspensos na portaria.
CAPÍTULO V: O Ecossistema dos Sebos e a Caça ao Tesouro
Nenhum dossiê sobre o Maletta estaria completo sem um mergulho profundo no universo poético dos seus sebos. Diferente das livrarias modernas de shopping, assépticas e organizadas por algoritmos de venda, os sebos do Maletta são labirintos de papel.
Lojas como a "Livraria do Maletta" ou o "Sebo da Savassi" (que, ironicamente, fica no Maletta) operam numa lógica de descoberta. As pilhas de livros desafiam a gravidade e a engenharia. O cheiro é uma mistura de ácaro, papel envelhecido e história. Para o bibliófilo, é um paraíso perdido. É possível encontrar primeiras edições de Guimarães Rosa, revistas de arquitetura dos anos 70 e quadrinhos raros, muitas vezes por preços irrisórios, desde que se tenha a paciência de garimpar. O ato de "garimpar no Maletta" é um esporte intelectual praticado por estudantes e professores universitários há mais de meio século.
CAPÍTULO VI: Conclusão e o Futuro do Gigante
O Edifício Arcângelo Maletta é a prova concreta de que a cidade é um organismo vivo, não um projeto estático. Ele nasceu como um símbolo de luxo e modernidade, transformou-se em bunker de resistência política, decaiu para a obscuridade e renasceu como o coração pulsante da cultura alternativa.
Enquanto shoppings centers padronizados lutam para manter a relevância na era digital, o Maletta prospera justamente pela sua falta de padrão. Ele é sujo e limpo, barulhento e culto, sagrado e profano. Sentar-se em sua varanda, pedir uma cerveja e observar o fluxo incessante da Rua da Bahia não é apenas um ato de lazer; é um ato de comunhão com a essência de Belo Horizonte. O Maletta não é para quem busca a perfeição asséptica; é para quem busca a vida em toda a sua complexidade bagunçada e deliciosa.
"O Maletta não se explica, se vive. É o único lugar do mundo onde você pode cortar o cabelo, comprar uma obra completa de Freud, comer um tropeiro vegano e encontrar o amor da sua vida (ou perdê-lo), tudo sem mudar de andar."
Para extrair o máximo da experiência Maletta, siga este guia tático:
- 12:00: Almoço executivo tradicional na Cantina do Lucas. Peça o filé à parmegiana ou o famoso filé surprise.
- 14:00: Tarde de caça aos livros nos sebos do sobreloja. Desligue o celular e perca-se nas estantes empoeiradas.
- 17:00: Café e pão de queijo nas lanchonetes do térreo para ver o movimento da Augusto de Lima.
- 19:00: Suba para a varanda. A disputa por mesas é acirrada. Chegue cedo se quiser vista para a rua.
- 23:00: A noite avança, a música sobe. É hora de explorar os bares menores e a diversidade de drinks.
Dossiê Monumental - Série "Ícones de BH" - Edição Especial © 2026.
Pesquisa baseada em arquivos da Fundação Municipal de Cultura e relatos orais.
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