segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Guia Monumental do Circuito Liberdade

O Guia Monumental do Circuito Liberdade

História, Arquitetura e a Alma de Belo Horizonte

Se existe um lugar em BH onde o passado convida o presente para um café e uma boa prosa, esse lugar é o Circuito Liberdade. Quem caminha hoje pela nossa famosa Praça, entre os corredores de palmeiras imperiais e a turma fazendo piquenique no gramado, às vezes nem imagina a revolução que aquele pedaço de chão representa.

Não estamos falando apenas de um cenário bonito para fotos. O Circuito Liberdade é o maior complexo cultural a céu aberto do Brasil e a prova viva de que Belo Horizonte nasceu com vocação para a grandeza. Neste guia, vamos desvendar os segredos desse patrimônio, começando pelo coração de tudo: a fundação da nossa capital e o simbolismo por trás da Praça e do Palácio.

Alameda Central da Praça da Liberdade A elegância da Alameda Travessia: o cartão-postal definitivo da capital mineira.

A "Cidade de Minas" e o Sonho Republicano

Precisamos voltar um pouco no tempo, para o final do século XIX. Ouro Preto, com suas ladeiras de pedra e casarões coloniais, já não comportava os sonhos de modernidade da nova República. A elite mineira queria algo novo, higiênico, racional. Era preciso uma "tábula rasa".

Foi nesse contexto que o engenheiro Aarão Reis projetou a "Cidade de Minas" (nossa futura BH) sobre o antigo Arraial do Curral Del Rey. O plano era ousado: uma cidade desenhada como um tabuleiro de xadrez, inspirada em Paris. E, no ponto mais alto dessa nova metrópole, olhando de cima para baixo, ficaria o centro do poder: a Praça da Liberdade.

💡 Curiosidade de BH: A Praça foi construída no topo da Avenida João Pinheiro de propósito. A ideia era que o Palácio do Governo dominasse a paisagem, mostrando a força do Estado sobre a geografia montanhosa de Minas. Quem está lá embaixo, na Praça da Estação, olha para cima e vê o poder.

A Praça que Trocou de Roupa

Muita gente não sabe, mas a Praça da Liberdade nem sempre teve essa cara de "Jardim de Versalhes". Quando foi inaugurada, lá em 1897, o paisagismo seguia o estilo inglês. Era tudo mais orgânico, com curvas sinuosas e jardins que imitavam a natureza quase selvagem.

Porém, na década de 1920, BH se preparava para receber uma visita ilustre: os reis da Bélgica. Para fazer bonito para a realeza europeia, o governo decidiu reformar a praça inteira. Saiu o estilo inglês (que foi mantido apenas nas laterais, onde a gente gosta de caminhar na sombra) e entrou o estilo francês na parte central.

Foi nessa época que ganhamos a nossa famosa simetria:

  • A Alameda Central reta e monumental;
  • As imponentes Palmeiras Imperiais (que dão aquele charme único);
  • O lindo Coreto e as fontes com repuxos d'água.
Coreto da Praça da Liberdade O Coreto: palco de encontros e símbolo da reforma afrancesada de 1920.

O Palácio da Liberdade: Nossa Joia Eclética

Ao fundo da praça, reinando absoluto, está o Palácio da Liberdade. Ele foi, por décadas, a residência oficial e o local de despacho dos governadores de Minas. É ali que a mágica da arquitetura realmente acontece.

O estilo é o Eclético com forte influência neoclássica. Por fora, ele passa seriedade, ordem e poder. Mas o mais fascinante é o segredo que as paredes guardam: o Palácio foi construído com uma estrutura metálica importada da Bélgica. É como se ele tivesse um "esqueleto de ferro" moderno e industrial, vestido com a elegância clássica da alvenaria.

Luxo e Poder nos Interiores

Se por fora ele impõe respeito, por dentro ele foi feito para deslumbrar. Temos a escadaria principal, fundida em ferro e bronze com aquele toque Art Nouveau, e o magnífico Salão Nobre, com lustres de cristal e pinturas que exaltam a liberdade mineira. Sem falar no intrigante Salão Mourisco, uma sala decorada com estilo oriental, super na moda na época, usada para reuniões mais informais (e certamente, muito charuto e cafezinho).

Fachada do Palácio da Liberdade Palácio da Liberdade: onde a história política de Minas foi escrita.

De "Centro Cívico" para Circuito Cultural

Durante muito tempo, subir a João Pinheiro significava ir tratar de política e burocracia. A praça era o "Centro Cívico", um lugar de decisões sérias. Mas, com a mudança do governo para a Cidade Administrativa em 2010, esses prédios históricos ganharam uma nova e nobre missão: guardar a nossa memória e respirar arte.

As antigas secretarias viraram museus incríveis que hoje formam o Circuito Liberdade. O que antes era papelada e carimbo, hoje é exposição, música, planetário e conhecimento acessível para todos nós. É um privilégio ver a cidade se reinventando sem apagar o passado.

Os Guardiões da Praça

Onde as antigas secretarias viraram casa de cultura

Agora que já entendemos o "chão" onde pisamos, é hora de levantar a cabeça e admirar os gigantes que abraçam a praça. Lembra que eu disse que Aarão Reis planejou um centro administrativo? Pois bem, esses prédios neoclássicos coloridos, que hoje a gente entra para ver exposição de arte, eram onde a burocracia do estado acontecia.

A magia do Circuito Liberdade está justamente nessa transformação: salas onde antes se carimbavam papéis e se decidiam impostos, hoje guardam a alma, a arte e a memória de Minas Gerais. Vamos conhecer os principais?

O CCBB: O Gigante Amarelo

Impossível passar pela praça sem notar o imponente prédio amarelo com traços ecléticos. Originalmente projetado para ser a Secretaria do Interior e Justiça (e por um tempo, sede da Polícia Militar), hoje ele é o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-BH).

O CCBB é, sem dúvida, o "blockbuster" do circuito. É aqui que chegam as exposições internacionais gigantescas, as mostras de cinema e as peças de teatro disputadas. Mas, uma dica de quem vive aqui: não entre só pelas exposições. O prédio em si é uma obra de arte.

O pátio interno é um respiro arquitetônico maravilhoso. Vale a pena parar no café que fica lá dentro, pedir um pão de queijo e ficar admirando os vitrais e o piso de ladrilho hidráulico. É um dos prédios mais bem preservados e vibrantes da cidade.

Fachada do CCBB Belo Horizonte O CCBB BH: palco das maiores exposições internacionais e dono de um pátio interno encantador.

Memorial Minas Gerais Vale: A Alma Mineira

Ali na esquina, temos o antigo prédio da Secretaria da Fazenda. Hoje, ele abriga o Memorial Minas Gerais Vale. Se eu tivesse que escolher apenas um lugar para explicar para um turista o que é "ser mineiro", eu levaria ele lá.

Diferente de museus tradicionais com vitrines de vidro e plaquinhas de "não toque", o Memorial é um "museu de experiência". Ele é escuro, teatral, sensorial. Você caminha pela história de Minas, do ciclo do ouro ao modernismo, guiado por vozes, luzes e cenários.

💡 Não perca: A sala do "Panteão da Política", onde os quadros dos inconfidentes ganham vida e conversam entre si, e a sala sobre as "Lendas de BH", onde você descobre quem foi a temida Maria Papuda e a Loira do Bonfim. É de arrepiar!
Fachada iluminada do Memorial Minas Gerais Vale Memorial Vale: onde a história de Minas é contada com emoção e tecnologia.

MM Gerdau: O Prédio Rosa

Do outro lado da praça, fazendo par com o Memorial, está o inconfundível "Prédio Rosa". Antiga Secretaria da Educação, hoje é o Museu das Minas e do Metal (MM Gerdau). A restauração desse prédio foi meticulosa e ele é lindo por dentro e por fora.

Esse museu é uma homenagem àquilo que dá nome ao nosso estado: as minas. Mas não espere ver apenas pedras em prateleiras. O acervo é interativo e mostra a riqueza mineral do Brasil de forma lúdica. É o favorito das crianças e dos "geeks" de ciência.

A escadaria central, feita em ferro fundido belga (assim como no Palácio), é um espetáculo à parte. Se você gosta de arquitetura, vai gastar uns bons minutos subindo e descendo aqueles degraus só para admirar os detalhes.

Fachada do Prédio Rosa - MM Gerdau O "Prédio Rosa": antiga Secretaria da Educação, hoje guardião das nossas riquezas minerais.

A Polêmica "Rainha da Sucata"

Nem tudo na Praça da Liberdade é harmonia neoclássica do século XIX. No meio desse cenário de época, surge um prédio que quebra todas as regras: o Edifício Tancredo Neves, carinhosamente (ou não) apelidado pelos belo-horizontinos de "Rainha da Sucata".

Construído na década de 1980 em estilo pós-moderno, ele foi projetado pelos arquitetos Éolo Maia e Sylvio de Podestá. É uma explosão de cores, formas geométricas e materiais inusitados que contrasta violentamente com a elegância sóbria dos vizinhos.

Por muitos anos, ele foi criticado por "estragar" a vista da praça. Hoje, já entendemos que ele representa a ousadia e a diversidade da arquitetura mineira. Ele nos lembra que a cidade é viva e não parou no tempo. Atualmente, abriga o Centro de Design e é um ponto de foto obrigatório para quem gosta de arquitetura diferentona.

Edifício Rainha da Sucata A ousadia pós-moderna da "Rainha da Sucata": amada por uns, questionada por outros, ignorada por ninguém.

Caminhar pelo Circuito Liberdade é isso: sair de um palácio do século XIX, entrar em um museu tecnológico e dar de cara com um prédio pós-moderno colorido. É uma mistura que só BH tem.

Olhando para o Céu e para o Futuro

Astronomia, Niemeyer e o encerramento do nosso passeio

Se você acha que já viu tudo na Praça, respire fundo que ainda tem mais. O Circuito Liberdade não vive só de passado; ele também aponta seus telescópios para o universo e suas curvas para a arquitetura moderna.

Espaço do Conhecimento UFMG: O Olho da Praça

Sabe aquele prédio envidraçado que reflete o céu de BH e tem uma estrutura esférica lá dentro? Aquele é o Espaço do Conhecimento da UFMG. É o lugar onde a ciência encontra a cultura de um jeito que a gente entende.

O grande astro aqui (literalmente) é o Planetário. É um dos mais modernos do país. Deitar naquelas cadeiras e ver as estrelas e galáxias projetadas no teto é uma experiência que faz a gente se sentir pequeno diante do universo, mas grande por estar ali.

💡 Dica de Ouro: Tente visitar no final da tarde e suba ao Terraço Astronômico (no último andar). Eles têm telescópios para observação do sol e, à noite, da lua e planetas, quando o tempo ajuda. E a vista da Serra do Curral dali é de chorar de bonita.
Fachada digital do Espaço do Conhecimento UFMG Espaço UFMG: onde a gente aprende sobre constelações e vê a cidade de cima.

Casa Fiat de Cultura e o Tesouro de Portinari

Um pouco mais adiante, no antigo Palácio dos Despachos, funciona a Casa Fiat de Cultura. É um espaço elegante que costuma receber exposições de arte clássica e internacional de altíssimo nível.

Mas o verdadeiro tesouro da casa é fixo e está logo na entrada: o painel "Civilização Mineira", de Candido Portinari. É uma obra modernista gigante que narra a nossa história, dos bandeirantes à inconfidência. Ver um Portinari original assim, de graça e tão de perto, é um privilégio que BH nos dá.

Biblioteca Pública: O Toque de Niemeyer

Para fechar o nosso tour arquitetônico, não podia faltar ele: Oscar Niemeyer. Muita gente associa Niemeyer apenas à Pampulha, mas ele também deixou sua marca na Praça da Liberdade.

O edifício anexo da Biblioteca Pública Estadual, conhecido pelos belo-horizontinos como "o prédio da chuva" (por causa do formato ondulado que lembra gotas ou nuvens), foi projetado por ele na década de 1950. É a modernidade brasileira dialogando com o ecletismo do século XIX. A biblioteca é um refúgio de silêncio e leitura no meio da agitação da cidade.

Fachada da Biblioteca Pública Estadual As curvas de Niemeyer na Biblioteca Pública: arquitetura moderna abraçando a literatura.

Vem pra Praça!

O Circuito Liberdade é muito mais do que a soma dos seus prédios. É o lugar onde Belo Horizonte acontece. É onde a gente vê o casal de namorados no banco, o idoso lendo jornal, a criança correndo atrás da pomba e o turista admirando o Palácio.

Seja para entrar nos museus e mergulhar na história, ou apenas para sentar na grama, comer uma pipoca e ver a vida passar, a Praça está de braços abertos. Como bom mineiro, deixo o convite: a casa é sua, pode entrar, só não repara a bagunça (que na verdade, é pura cultura).

Gostou do nosso Guia Monumental?

Compartilhe este post com quem vem visitar BH ou com aquele amigo que mora aqui mas nunca entrou no Palácio! E claro, deixe seu comentário abaixo: qual seu cantinho preferido da Praça?

Nenhum comentário:

Postar um comentário